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terça-feira, 16 de novembro de 2010

MOMENTOS...

Corto Maltese

"as letras e os sonhos..."

O primeiro grande episódio da vida de Corto ocorreu quando, ainda criança, uma conhecida amiga de sua mãe tentou ler sua mão e se espantou ao ver que ele não tinha a linha da sorte. O garoto respondeu sem pensar:
“Minha sorte faço eu” e, pegando a navalha do pai, abriu um profundo entalhe no lugar da linha inexistente.
Uma praia, um céu que não pode ser outro que azul, uma laguna calma onde balança uma escuna de dois mastros, uma praia onde um homem de aparência estranha se espreguiça sob um guarda-sol. Foi assim que vi Corto Maltese pela primeira vez.
Escapar ao apelo de Corto Maltese e suas histórias é uma tarefa árdua que requer uma grande distância (o suficiente para não ter a revista sob os olhos) e uma ferrenha incapacidade de sonhar. Para esses raros eleitos, Corto não passa de um rabisco com palavras demais e introduções que parecem intermináveis, frequentemente repletas de símbolos e ilustrações sem interesse. Às vezes invejo quem consegue pensar assim, pois esses privilegiados se safam da nostalgia fascinante e contagiosa que aperta a garganta enquanto os olhos percorrem mares e estepes.

Corto Maltese é um personagem de histórias em quadrinhos criado por Hugo Pratt

... “ restam ao Corto alguns atributos do mito, já que ele é o fruto do encontro entre um marinheiro da Cornualha e uma das mais poderosas bruxas de Gibraltar (…) Além disso, como os super-heróis, o maltês é facilmente reconhecido pelo seu aspecto: sua roupa de marinheiro e os traços característicos – chapéu, argola na orelha e cigarro – fazem dele um herói particular ligando-o ao mito. No entanto, contrariamente ao herói mitológico, seu sabor vem de sua profundidade psicológica. Enquanto o mito é condenado a ser uma imagem distante no céu etéreo, Corto Maltese procura se aproximar da humanidade – para não dizer do homem-tal-qual-ele-devia-ser. Algumas das características mais marcantes postas em evidência na saga (sua ironia, seu cinismo, seu senso da fatalidade, um certo romantismo escondido sob aspectos violentos, sua cultura e seu gosto pelas mulheres) permitem entender melhor esse arquétipo cuja personalidade é quase humana. No entanto ele é pego em um duplo movimento simultâneamente de negação desse status de mito pela HQ e de mitificação, sobretudo graças às entrevistas concedidas por Hugo Pratt e os diferentes trabalhos produzidos sobre a saga. Além do mais, ele evita os becos sem saída provocados pela baixeza humana sem se mostrar melhor que os outros e, sobretudo, sem tentar "

Corto deve ser lido e saboreado antes de tudo sem a preocupação de uma olhar geométrico que o destituiria de toda leveza poética, tudo aquilo que faz sua magia…
... não poderia deixar de lado os companheiros de Corto que aparecem pelo caminho. Do seu grande (e louco) amigo Rasputin, que herdou o visual e o temperamento de seu inspirador histórico, passamos por mulheres encantadoras, fatais, enigmáticas, poderosas, traiçoeiras que se revelam com nomes como Hipazia, Boca Dourada, Pandora…, a lista é longa como as frustrações e paixões que elas despertam no leitor.

...e de repente o livro chega ao fim, e todos se reúnem em uma reverência final antes da última página em branco cobrir seus rostos como uma cortina que desaba.
Não termina mais uma história de Corto Maltese: nós é emergimos de volta para o barulho, o maldito celular que toca. 
Guarda-se o livro na estante, com esse inexplicável gosto de maresia e saudade.
É uma fábula que existe pelo simples prazer de existir, para quem quiser persegui-la.

Os volumes já publicados são:

“Corto Maltese – A Balada do Mar Salgado” (2006)
“Corto Maltese – Sob o Signo do Capricornio” (2006)
“Corto Maltese – Sempre um Pouco Mais Distante” (2006)
“Corto Maltese – As Célticas” (2007)
“Corto Maltese – As Etiópicas” (2008)



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Maduc le Noir

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